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Andorinhas Ingénuas

"Andorinhas Ingénuas" é a 11ª produção da F.C. Produções Teatrais. Esta peça retoma um autor com o qual temos convivido desde 1995, através da saga dos Monstros Sagrados, baseada nas colectâneas de diálogos de Les Diablogues e Les Nouveaux Diablogues. A peça "Andorinhas Ingénuas" começou a ser escrita em finais dos anos 40, embora só tenha sido apresentada na sua versão final em 1960. O autor, admirador de Becket e de Ionesco, tenta nesta sua primeira peça de grande fôlego, a primeira do autor a ser destacada pela imprensa e crítica da época, criar um estilo original inscrevendo-se na linhagem do absurdo.

A peça na sua época gerou polémica, tendo E. Ionesco, então, escrito a favor de R. Dubillard, resgatando para a intelectualidade Francesa contemporânea a genialidade de um autor que se iguala pela profundidade do seu teatro aos seus mentores. "Andorinhas Ingénuas" é uma peça que não se pode qualificar num género específico, pois ela recria no seu próprio estilo algo que se pode aproximar do teatro do absurdo, mantendo no entanto influências que vão do teatro de boulevard ao burlesco dos Irmãos Marx .

"Andorinhas Ingénuas" apresenta por outro lado uma profundidade temática de uma peça digna do filósofo que Dubillard é e analisa temas tão fundamentais como a tempo, a idade, a passagem do tempo, a velhice, a juventude, por outras palavras a vida, com a sua dose existencial de depressão que se traduz no aborrecimento e no cansaço sempre presente na peça.

Mas embora falando do aborrecimento, através de uma acção balbuciante e quase inexistente, partindo de uma formalidade do vazio, da ausência ou confusão de objectivos, a partitura proposta por Dubillard presenteia-nos com uma série de 'gags', quidproquos, situações burlescas e absurdas, dignas do actor que R. Dubillard também é, que nos transformam cada minuto da representação num prazer renovado e surpreendente.

A acção decorre no espaço de três semanas, estando dividida em três actos que constituem quase três peças diferentes, pela variedade de registos e citações que apresentam. No primeiro acto não se passa nada, servindo a acção para situar e apresentar as personagens e no entanto, a forma de que se reveste esta ausência de acção é ritmada, cheia de gags e peripécias, digna do burlesco e da irreverência dos irmãos Marx e da alta comédia de boulevard. Já no segundo acto, 15 dias depois, a situação é de crise, estando todas as personagens numa situação dramática limite, embora os motivos sejam irrisórios e anunciem já o teatro do absurdo. Esta crise é resolvida no terceiro acto numa autêntica citação a Becket, onde o teatro do absurdo se afirma em toda a sua dimensão existencial, revelando o sentido dos actos anteriores.

Esta arquitectura original que Dubillard imprimiu a esta sua 1ª obra, que revela um tratamento de pormenor, torna-a extremamente difícil de representar, exigindo o virtuosismo dos autores e uma correcta interpretação dos estilos de representação requeridos para cada momento do espectáculo, para além de um apurado trabalho de manipulação de cenários e objectos só comparável ao melhor de Tati e do cinema mudo de Chaplin ou Bucha e Estica. O mesmo se aplica aos diálogos repletos de humor, acidentes e segundos sentidos, tornando o trabalho do actor uma autêntica sessão de malabarismo, ensaiada ao pormenor. O prazer da representação não deixa no entanto de estar presente em todos os momentos da peça, compensando o empenho do actor.

Pelos motivos acima descritos, não foi fácil montar este espectáculo, que sofreu algumas atribulações de percurso, tendo também sofrido alguns adiamentos. O resultado satisfaz-nos apesar de toda a dificuldade em levar a cabo este projecto e, talvez por ser um trabalho mais difícil e ousado que alguns dos anteriores, ele reflicta também uma simbólica evolução da Companhia, a F.C. Produções Teatrais que, desde a sua instalação no Teatro Casa da Comédia, tem sabido manter um projecto coerente com a reabilitação deste espaço teatral e com o espírito itinerante da companhia.

Para que este projecto tenha conseguido crescer até à sua dimensão actual, augurando uma continuação próspera e cada vez mais sólida, tem contribuído a extraordinária eficiência e capacidade profissional da equipa que entretanto se foi construindo, envolvendo técnicos, administrativos, actores e criativos. A generosidade e capacidade de realização destas pessoas, associadas aos seus talentos específicos, criaram a harmonia necessária a enfrentar desafios, cada vez mais exigentes e de acordo com a nossa vontade de afirmação e crescimento.

A escolha de Dubillard, como autor de eleição para um desafio mais duro, vem como um corolário da nossa opção estética, em tratar numa linguagem popular, se bem que esclarecida, temas profundos e existenciais que se podem resumir numa das muitas frases da peça: "são coisas que acontecem!"

[Filipe Crawford]

Andorinhas Ingénuas no Teatro de Poche>>
Claude Olivier

Para ser franco fiquei satisfeito de não ter podido ver o espectáculo na noite da estreia. Cortaram com certeza um bom bocado de texto, já que a peça acabou bem mais cedo do que deveria, segundo disseram os meus colegas. E talvez seja por isso que não me sinta um crítico por aí além em relação a esta representação.

Não é, de facto, uma obra-prima. Mas digam-me quantas peças há em cena neste momento em Paris onde eu possa rir com toda a liberdade durante todo o primeiro acto e durante os outros dois nunca ficar indiferente e continuar a rir, porque há um humor sui generis que banha todo o peça, que sacode no momento exacto o espectador que ou está enervado por elucubrações inúteis ou já está quase a dormir, depende do feitio...

Não vos vou contar a peça: para já não tenho espaço e além do mais não teria qualquer interesse. O melhor de Roland Dubillard está mais na maneira como escreve e diz do que aquilo que ele conta. O Dubillard e o Gregoire são a mesma pessoa. Lembram-se das suas paródias radiofónicas com o seu cúmplice Amedée? Se as evoco neste momento não é por mania - Gregoire e Amedée, que é como quem diz Castor e Pollux, etc. - mas é porque as Andorinhas Ingénuas retomam esse mesmo tom. Tom esse que é desleixado, às vezes incoerente e sempre muito falador; e, no entanto, apercebemo-nos de um lógica interna baseada muitas vezes no absurdo, e é impossível ficar insensível à verdadeira recriação, ao desenho de uma frase, ao acaso de uma qualquer situação do dia-a-dia, ao trivial.

E como isso é tão importante! Triste ou alegre. Alegre... é uma maneira de dizer: aliás está-se sempre a dizer "que chatice", e podemos estar certos que no fim de contas é mesmo sinistro. Mas no fundo não é grave. É a vida... E a vida, o que é? É aí que Dubillard intervém em demasia, mas lá vem o Gregoire que acaba com as suas digressões e lhe fecha o bico com aqueles seus silêncios de palhaço atrozmente desesperado, que cultiva com um cuidado e uma minúcia extremos: despojado de tudo... mas sobreviverá. Nós sabemos e ele também o sabe. Enfim, é a vida. E tudo então recomeça...

Espero bem que o espectáculo tenha sucesso, porque além de Gregoire, está muito bem interpretado por Tania Balachova, Arlette Reinerg, Bernard Fresson e tem um excelente cenário de Jacques Noël, prático, que serve muito bem a peça... Continuem! Para que Dubillard possa escrever tranquilamente outra peça em que se empenhe em contar histórias que sejam um pouco mais interessantes para um maior número de pessoas... Se calhar é mesmo o Gregoire que escreverá essa peça. Sabem que mais, até podemos ter confiança nos palhaços...

Lés Lettres françaises, 2 de Novembro de 1961
[Tradução de Maria Arriaga]

Dona Severina>>

A Dona Severina é dessas pessoas que, à partida, estão já meio-mortas. Dir-se-ia que ela se passeia sobre uma teia de fios entre a plataforma da vida e o trampolim da morte. Mas, na verdade, não há teia nenhuma; imaginamo-la porque não é crível que alguém caminhe no vazio. E se a Dona Severina não cai não é porque um chão ou uma teia qualquer a sustenham; ela não cai porque perdeu a gravidade.

Ninguém se apercebeu mas, a Dona Severina, transformou-se não ainda numa velha senhora mas numa senhora gorda. Ela gostaria de se convencer de que ainda está agarrada à vida, de que precisa de se prender a alguma coisa. Mas já não é às coisas reais que se agarra. É aos seus fantasmas. Julga-se gulosa mas o que come não a alimenta; pensa que os homens olham para ela mas o facto é que eles já nem se dão ao trabalho de virar a cabeça, não vêem a rapariga que ela foi, nem a podem censurar por desfigurar a imagem. A Dona Severina imagina-se, assim como imagina o que ama.

Quando sonhamos sabemos que sonhamos mas isso não interessa ao sonho. Para quê? Este saber só o podemos sonhar. Não nos podemos inteirar, fazer a soma final e partir, pois... Mas tal como no sonho a senhora gorda defende-se: evita pôr em perigo a imagem que ela tem de si própria e dos outros. Diz-se insensível, diz que os homens já não lhe interessam, que alargar a loja trar-lhe-ia mais aborrecimentos que vantagens. Inapta para o combate, olha com um sorriso nos lábios para os que lutam. É dominada por alguém ou por alguma coisa em vez de reconhecer a sua fraqueza devido à sua infelicidade e, por tal, poderá sempre sonhar.

Não será ela, a mulher gorda, que foi vencida pela realidade mas, sim, a rapariga que julga ainda ser. No entanto, a verdade exprime-se nela por um mal-estar cada vez maior que transborda os diques que o tentam conter. O que é que se passa? Roubaram-me qualquer coisa - diz a Dona Severina. Olha à sua volta e vê que já não impõe a sua lei. Olha aqueles que vão viver com curiosidade nova que se transforma a pouco e pouco em inveja e maldade. Interessa-se de tal maneira por esses seres ingénuos que vêm ocupar o seu lugar na vida que chega a imaginar um duplo de si própria entre eles que a atraiçoa e esvazia. Então afasta-se. Atingiu a outra margem. Ela sente de novo o seu peso, o peso necessário para cair. A Dona Severina morreu.

R. Dubillard [Tradução de Maria Arriaga]

Fado>>

Ai andorinhas ingénuas
Levai-me p´ra bem juntinho dela
Os meus desejos quais versos luzentes
Levem-lhos levem voando contentes
Ai andorinhas ingénuas
Porque eu a amo e ele é bela

O Inverno traiu as flores
E na janela o manjericão
Murchou no seu vaso perdido de amores
Mas apesar de estar tanto frio
Tentou gelar-vos mas não conseguiu
Nem ninho nem coração
Nem ninho nem coração

A Ivete traiu o Simão
Mas o Simão era mau marido
A vida sexual é uma confusão
Mas apesar de tanto alarido
O amor procura sempre um sentido
Para o ciúme e para a traição
Para o ciúme e para a traição

Ai andorinhas ingénuas
Levai-me p´ra bem juntinho dela
Os meus desejos quais versos luzentes
Levem-lhos levem voando contentes
Ai andorinhas ingénuas
Porque eu a amo e ele é bela

(Adaptação de Filipe Crawford, Rui Paulo e Quim Tó a partir do original de Roland Dubillard)

Obras de Roland Dubillard>>

Teatro
Naïves Hirondelles (Andorinhas Ingénuas), Gallimard 62
Si Camille Me Voyait…, Gallimard 62
La Maison d´Os, Gallimard 66
Le Jardin aux Betteraves, Gallimard 69
Où Boivent les Vaches, Gallimard 73
Les Diablogues, L´Arbalète 76
Les Chiens de Conserve, Organon 86
Les Nouveaux Diablogues, L´Arbalète 88
Il Ne Faut Pas Boire Son Prochain, Gallimard 98

Poemas
Je Dirai Que Je Suis Tombé, Gallimard 66
La Boite à Outils, L´Arbalète 85

Romances e Contos
Olga Ma Vache, Les Campements et Confessions d´Un Fumeur de Tabac Français, Gallimard 74
Le Père de Famille, Les Cahiers de la Comédie-Française nº13 94
Livre à Vendre, Éditions de Paris 56

Ensaio
Méditation Sur la Difficulté d´Être en Bronze, Julliard 72

Diário
Carnets en Marge, Gallimard 98

Guião
L´Affaire Manet, Avant-Scène Cinema nº 77 68

Em defesa de Dubillard>>
Ionesco

Se a peça de Weingarten é, como vimos, a expressão exacta e justificada do terror, a admirável peça de Roland Dubillard (Andorinhas Ingénuas, no Teatro de Poche) é a da angústia de viver sem poder amar, de viver sem objectivos ou por falsos propósitos. Que fazer de uma vida que nos envelhece, do aborrecimento de que não podemos escapar? É uma peça de raiva e mais, de uma raiva que embate contra o muro da impossibilidade. Essa raiva não é de todo a raiva sem razão de "A Paz do Domingo", de John Osborne, e aquela de tantas outras ninharias actuais inglesas que a sua piedosa jovem crítica defende, por patriotismo, política ou mediocridade de espírito.

Como gostaria de poder contar a beleza desta obra, com a precisão e o vigor com os quais Dubillard dá conta da atrocidade do aborrecimento. Porque não nos aborrecemos numa peça sobre o aborrecimento; também não se ri à gargalhada, chora-se talvez, se bem que esta obra nada tem de sentimental. Dubillard não se repete nem por um instante, o interesse do espectáculo nunca enfraquece. Tento descobrir a ciência que leva o autor a fazer desabrochar a atrocidade do aborrecimento, pela qual o intensifica, densifica, lhe descobre a essência e o faz explodir.

As personagens estão lá umas com as outras, amam-se um pouco e odeiam-se muito, querem-se separar e não podem passar umas sem as outras; detestam-se quando estão juntas e sofrem da ausência daquele ou daquela que, finalmente, consegue fugir para um novo deserto de aborrecimento. E aqueles que escapam parecem, aos que ficam, terem sido os únicos a poder salvá-los.

Mas esta maneira que eles têm de se agarrar uns aos outros, de se quererem separar uns dos outros, de odiar quem está presente e de sonhar, no desespero, com quem já não está lá, dá uma acuidade à sua angustiada necessidade de amor que esclarece o espectador sobre ele próprio e sobre as condições da miséria em que vivemos.

Sim, habituamo-nos a rir do que deve fazer chorar e rimo-nos, pelo menos no início. Devo dizer também que é porque nada se passa, que tudo se passa e que tantas coisas se passam e que o quadro da irrisão e do trágico fica completo.

Os "gags" visuais de um cómico sombrio são numerosos. O diálogo que, no início, está ao lado das personagens e fora de questão, como se essas personagens quisessem esconder delas próprias a sua própria confusão (mas os "lapsos" e os actos falhados estão presentes, reveladores, desmascarando o drama) subitamente torna-se mais preciso, as personagens falam, expõem-se e tudo se reata inextrincavelmente.

Escreveu-se que as peças de Dubillard e de Weingarten se assemelhavam às minhas. Sinto-me lisonjeado. Devo precisar todavia que elas não vieram de mim. Li uma obra de Weingarten. Felizmente, porque se o tivesse lido mais cedo teria podido questionar-me se o que escrevia não tinha sido influenciado por ele. Vi também, em 1953, Roland Dubillard a representar um sketch escrito por ele próprio no Teatro do Quartier Latin: reconheci um semelhante.

Este texto foi extraído do artigo intitulado "Pour defendre Weingarten et Dubillard", editado em Combat (1962) e reeditado em Notes e Contrenotes, das edições Gallimard em 1970.

[Tradução de Filipe Crawford e Nuno Pino Custódio]

Data da estreia: 28/05/2001
Local: Covilhã
Outros locais de representação: Casa da Comédia

Ficha artística

Autoria: Roland Dubillard; Encenação, tradução e adaptação: Filipe Crawford; Assistência de encenação e Edição do Programa: Nuno Pino Custódio; Cenografia e figurinos: Conceição Ferreira; Música (a partir do original de R. Dubillard): Quim Tó; Sonoplastia: Quim Tó; Desenho de luz: Ricardo Trindade; Design Gráfico: Carlos Francisco; Fotografia: Raul Cruz; Vozes Off: Fátima Pinto, Filipe Crawford, Maria Arriaga e Quim Tó (no fado); Spot de Vídeo: Ricardo Vinhas; Montagem: Ricardo Trindade; Assistência de Montagem: João Sofio, Sara Gil, Nuno Gomes e Pedro Carolas; Execução de Guarda-Roupa: Conceição Ferreira; Direcção de Produção: Conceição Ferreira; Produção Executiva: Paula Fernandes e Teresa Rouxinol; Contra-Regra: Pedro Carolas; Operação de Luz: Ricardo Trindade; Operação de Som: Nuno Gomes; Interpretação: Filipe Crawford, Maria Arriaga, Rui Paulo e Sílvia Marques

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