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Münchhausen

Dois actores interpretam dois actores que representam as aventuras do Barão de Münchhausen.

Karl Friedrich Hieronymus, Barão de Münchhausen, também conhecido por "barão das mentiras", existiu efectivamente (1720-97) e as suas histórias confundem-se com o mito e a realidade, tendo inspirado inúmeros autores e preenchido o imaginário de gerações ao longo de mais de dois séculos. Em palco, as anedotas de guerra (como a viagem pelo campo inimigo numa bala de canhão), as histórias de caça (como a do lobo que ao engolir o braço de Münchhausen foi virado do avesso) e as aventuras das viagens, como aquela na Polónia em que...

Dois actores e um espaço dedicado à fantasia, à maravilha e à imaginação, delirante, dos contos publicadas em 1788 por Gottfried August Bürger. Um lugar de ilusões onde a mentira, a discrepância, o exagero e a distorção convocam a imaginação e o sonho. Sempre a imaginação e o sonho rompendo a rotina e um certo desencanto do quotidiano.

O apelo à representação, procurando que com a imaginação o espectador (dos 6 aos 665) seja um participante activo. Gesto e palavra, máscara e pantomima, desenho e animação, música e muitos efeitos cénicos com este autêntico James Bond do século XVIII.

Do Capitão da Commedia dell´Arte
ao Barão de Münchhausen...

Na Commedia dell´Arte o Capitão encontrou sempre ampla ressonância na população dominante do estrangeiro que conhecia a arrogância e a prepotência dos soldados mercenários. Por este motivo, a personagem, que inicialmente na maioria dos casos representava um soldado espanhol, tornou-se também, com grande sucesso, uma figura italiana.

O Capitão foi uma das primeiras personagens a sair do mundo da Commedia. A sua última actuação foi registada no início de setecentos. A severa ordenação da reforma militar promulgada por Frederico II pôs fim ao fenómeno um tanto depreciativo dos soldados de ventura e os vários Capitães não foram mais que um pesado fardo difícil de suportar um pouco por toda a Europa.

A máscara conheceu no palco muitos apelidos: o mais famoso foi o Capitão Spavento di Vall´Inferna, mas também célebres foram Terremoto, Spacamonti, Sangr y Fuego, Taglia Cantoni, Matamoros, Spezzaferro ou Rodomonte.

A figura barroca e espalhafatosa do Capitão era fortemente caracterizada por uma série de atributos marciais: perna propositada à frente que, ao andar, batia com estrondo no chão, peito demasiadamente arqueado, espada interminável, fato garrido e com muitos contrastes de cores, chapéu com plumas, penachos, cinto, punhais... Na verdade, o fato era uma caricatura dos uniformes militares do seu tempo. Todo o aspecto devia impressionar e a linguagem era, necessariamente, truculenta e imaginativa. O importante era que fosse o mais insólito e bizarro possível.

As origens do Capitão remontam às comédias atelanas (Attellanæ), farsas populares, paródias e sátiras políticas provenientes da região de Atella, aldeia da região de Osci, Itália, nos séculos II e III A.C. Já aí se encontram actores mascarados, personagens tipificadas e trabalho de mimo e pantomima reproduzindo cenas da vida camponesa. Uma dessas personagens, Manducus (o Ogre), é tida como o mais antigo descendente do Capitão. Depois, será necessário chegar ao teatro de Plauto e ao seu Soldado Fanfarrão (Miles Gloriosus). Pirgopolinice (o soldado fanfarrão de Plauto) apresenta já aspectos intocáveis na caracterização final destas personagens. A assunção de um estatuto pelo discurso e uma enorme discrepância com os actos. Aliás, é este, mesmo, um dos efeitos cómicos mais proeminentes na caracterização do Capitão. Não basta dizer-se que se é isto ou aquilo. A palavra só não chega. E quanto mais houver, menos chegará. O público, para acreditar, precisa de ser testemunha ocular de actos... e é aqui que irrompe o cómico em toda a sua plenitude. Neste aspecto, o fato do Capitão mais não é que um complemento... das próprias palavras, nunca das acções (há inclusive quem, exibindo uma bela e longa espada, nunca a desembainhe). Daqui até ao final do século XVIII nasce o período áureo dos capitães, o período da Commedia dell´Arte, que os torna famosos em toda a Europa, permitindo, até, o aparecimento de muitas e muitas personagens em vários países. Alguns actores conhecem a fama com os seus capitães, como Tibério Fiorilli, em Scaramouche (Escaramuça).

Só no teatro francês, entre o século XVI e XVII encontramos cinco capitães famosos, como Taille-Bras (1567), Rodomont (1618) Engoulevent, o já mencionado Scaramouche e Crispin.

Münchhausen tem, igualmente, um descendente alemão: Horribilibifibrax...

Münchhausen não é uma personagem da Commedia mas um herdeiro de uma tradição reconhecida em finais de setecentos por quase toda a Europa. Agora uma personagem da literatura (como em França será também o Capitão Fracasse), quando outras, Arlechhino ou Pulcinella, para citar só estes exemplos, encontram espaço noutras manifestações artísticas, como a ópera, o ballet ou a pintura (quando não se tornam mesmo símbolos nacionais Pulcinella transformou-se no Punch de Inglaterra ou no Petruska da Rússia...).

Fanfarrão, assumido apreciador da beleza feminina, capaz de evocar feitos heróicos e extraordinários ao mesmo tempo que se vai assustando com a presença de um simples lobo, não deixa, por isso, de se proclamar descendente de algum herói mitológico, bíblico ou da antiguidade (no caso, David). Fala pelos cotovelos mas quanto a actos ficamos sobretudo... pela conversa fiada. De resto é a sorte e a providência (sempre aliadas à sua presença de espírito, claro) que lhe resolvem as mais intricadas situações, quando não se tratam de “retumbantes vitórias”!

Outro traço importante é a sua condição de mercenário. Münchhausen combate nas Guerras Turcas, ao serviço de Catarina II, da Rússia, fazendo parte de um regimento de hussardos. É um viajado viajante, um aventureiro dos confins do mundo (e dos seus arredores, como atestam aquelas viagens à Lua ou ao interior da Terra) que dá conta dos usos e costumes dos povos, da fauna e da flora e que tem sempre um extraordinário poder de se adaptar às mais diversas culturas, estados ou circunstâncias.

Nunca mente. O mais que pode acontecer é haver alguém que exagere “muitíssimo” os seus actos, o que lhe é bastante prejudicial, pois pode levar as pessoas que não o conhecem a duvidar do resto, “da verdade das suas aventuras”.

Nuno Pino Custódio

O Espectáculo

Quisemos experimentar a mesma liberdade. A mesma que o nosso Barão se vale para narrar as suas histórias e aventuras. Acreditamos que a sua imaginação delirante (como a imaginação delirante de muitas personagens da Commedia dell´Arte) não terá o mesmo impacto, hoje, como possivelmente teve no seu tempo.

Dali até cá, já travámos conhecimento com, para citar apenas um exemplo gritante, Júlio Verne isto por causa das viagens à Lua, das histórias marinhas ou ao interior da Terra; já conhecemos a banda-desenhada ou muito do imaginário de Münchhausen não fosse de certa forma percursor de uma estilização própria desse universo aos quadradinhos como as estrelinhas que vê quando dá um soco no seu próprio olho; e por último, dali até cá, muitos dos objectos de fantasia tornam-se realidade científica e tecnológica...

Acreditamos, como dizíamos, que todas estas coisas não terão o mesmo impacto... mas, valiosa é a liberdade de mentir para nos convocar ao sonho. Essa, mantendo-se intacta, é hoje cada vez mais um aspecto que nos toca profundamente.

Numa sociedade que nos tenta passar como real uma utopia para a comprarmos a prestações (uma sociedade que nos vende a pobreza a prestações?), que anseio se apodera de nós, aceitamos de consciência própria e de livre vontade as mentiras, os exageros, as discrepâncias deste nosso Barão como pequenos pedaços de sonho e maravilha! Aceitamos porque nos conta as suas histórias com uma energia pura, com um brilho luminoso que nos chega a ofuscar, com uma tal fé que é mesmo impossível fazermos-lhe (e fazermo-nos) tão grande desfeita. De resto, “quem quiser retirar-se”...

E, afinal, não é isto que acontece no teatro? Os espectadores não aceitam o jogo, não aceitam acreditar no jogo que os actores acreditam para o viverem com verdade por uns minutos ou horas? Quando tal não acontece, não é isto que nos frustra? Münchhausen é isto mesmo. Um contador de histórias que nos convida a sair por uns tempos da rotina mecânica do quotidiano, de uma normalidade mais que previsível. É uma caixinha de música que se abre e nos projecta de imediato para um outro tempo e espaço. Mágicos.

Karl Friedrich Hieronymus, Barão de Münchhausen, também conhecido por “barão das mentiras”, existiu efectivamente (1720-97) e as suas histórias confundem-se com o mito e a realidade, tendo inspirado inúmeros autores e preenchido o imaginário de gerações ao longo de mais de dois séculos. Em palco, as anedotas de guerra (como a viagem pelo campo inimigo numa bala de canhão), as histórias de caça (como a do lobo que ao engolir o braço de Münchhausen foi voltado do avesso como uma luva) e as aventuras das viagens (como aquela na Polónia em que...)

Um espaço dedicado à fantasia, à maravilha e à imaginação delirante dos contos publicadas em 1788 por Göttfried August Bürger. Um lugar de ilusões onde a mentira, a discrepância, o exagero e a distorção convocam a imaginação e o sonho. Sempre a imaginação e o sonho rompendo a rotina e um certo desencanto do quotidiano.

Quisemos apelar à representação, procurando que, com a sua imaginação, o espectador seja um participante activo.

Por detrás disto tudo, a relação de dois actores que combinam entre si os papeis, calhando à sorte, por intermédio de uma moeda, a vez de representar a personagem do Barão... “protagonista”

Gesto e palavra, máscara e pantomima, ilustração projectada num telão, música e som ao lado deste autêntico James Bond do século XVIII.

Nuno Pino Custódio

Ficha artística

[Texto Original] Göttfried August Bürger [Encenação, Dramaturgia e Máscara] Nuno Pino Custódio [Ilustrações de Cena] Filipe Abranches [Música Original e Sonoplastia] Fernando Mota [Espaço Cénico, Figurinos e Adereços] Paula Fernandes [Execução do Guarda-Roupa] Fátima Ruela [Desenho de Luz] Nuno Gomes, Nuno Pino Custódio e Ricardo Trindade [Ilustração] Filipe Abranches [Design Gráfico e Fotografias] Carlos Francisco [Programa (Edição)] Nuno Pino Custódio [Direcção de Montagem] Ricardo Trindade [Montagem] Nuno Gomes, Pedro Carolas e Ricardo Trindade [Execução de Cenário] Ricardo Trindade [Direcção de Produção] Conceição Ferreira [Produção Executiva] Paula Fernandes e Teresa Rouxinol [Interpretação] David Pereira Bastos e Nuno Pino Custódio [Direcção Artística da FC – Produções Teatrais] Filipe Crawford.

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